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Campo Grande,28/09/2026

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NA MÚSICA SERTANEJA DE MATO GROSSO DO SUL, NINGUÉM “PASSA RÉGUA”


NA MÚSICA SERTANEJA DE MATO GROSSO DO SUL, NINGUÉM “PASSA RÉGUA”

Forjada entre fronteiras, guerras, migrações e encontros culturais, a música sul-mato-grossense reúne influências paraguaias, argentinas, gaúchas, paulistas, mineiras e indígenas uma diversidade impossível de aprisionar em um único gênero.

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, foi criado em Corumbá e escolheu Campo Grande para viver até os últimos dias de 2014. Inventor de palavras, imagens e silêncios, o poeta compreendeu como poucos a impossibilidade de impor limites à natureza, à beleza e à diversidade cultural de Mato Grosso do Sul.

Foi dele a sentença que atravessou o tempo como uma definição do próprio território: “No Pantanal, ninguém pode passar régua.”

A frase também ajuda a compreender a música produzida em um dos estados mais jovens da Federação. Assim como as águas do Pantanal ignoram cercas e avançam conforme o ritmo das cheias, a criação musical sul-mato-grossense não aceita fronteiras rígidas. É sertaneja, fronteiriça, pantaneira, caipira, urbana, indígena, paraguaia, argentina e brasileira muitas vezes, tudo isso na mesma canção.


Em Mato Grosso do Sul, a música não nasceu de uma única raiz. Nasceu do encontro.

UM TERRITÓRIO MOLDADO POR MUITAS VOZES

A formação cultural do Estado começou muito antes de sua divisão político-administrativa. A ocupação da região foi marcada pela presença indígena, pela colonização espanhola e portuguesa, pelas rotas abertas por bandeirantes, boiadeiros, ervateiros, ferroviários, comerciantes e migrantes vindos de diferentes pontos do país.

A Guerra do Paraguai aprofundou esse entrelaçamento histórico. O conflito deixou marcas na geografia, na memória e nos costumes da população. Depois dele, a reconstrução econômica e social da região também trouxe novos deslocamentos humanos e, com eles, outras sonoridades.

Vieram influências do Paraguai e da Argentina, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais, de Goiás e de diversas regiões nordestinas. Cada grupo trouxe seus instrumentos, seus ritmos, suas festas e uma maneira particular de contar histórias.

A sanfona encontrou a viola. A harpa paraguaia dividiu espaço com o violão. O chamamé, a polca paraguaia, a guarânia, o rasqueado, a moda de viola e a música de baile passaram a conviver em um território que transformou a mistura em identidade.

DO RÁDIO AOS BAILES: AS PRIMEIRAS VOZES DE UMA IDENTIDADE

Entre as décadas de 1950 e 1960, artistas como Délio e Delinha, Zacarias Mourão e o grupo Amambay ajudaram a estabelecer os primeiros contornos de uma música regional reconhecidamente sul-mato-grossense.

Conhecidos como o “Casal Onça de Mato Grosso”, Délio e Delinha levaram para o rádio e para os palcos uma obra profundamente ligada à vida rural, aos costumes da fronteira e ao cotidiano das comunidades do interior. Suas vozes tornaram-se parte da memória afetiva de gerações.
O Amambay, por sua vez, revelou a força das influências paraguaias e fronteiriças. Em suas apresentações, o repertório regional aparecia sem pedir licença aos padrões estabelecidos pelos grandes centros. Era uma música que reconhecia suas origens e fazia delas motivo de orgulho.

Nesse período, os programas de rádio e os bailes desempenharam papel decisivo. Antes da televisão e muito antes das plataformas digitais, era nesses espaços que os artistas conquistavam público, faziam circular repertórios e consolidavam estilos.
A música viajava pelas ondas do rádio, pelas estradas de terra e pelas festas populares.

A GERAÇÃO QUE TRANSFORMOU O PANTANAL EM CANÇÃO

A partir das décadas de 1970 e 1980, uma nova geração ampliou as possibilidades da produção musical regional. Artistas como Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Geraldo Roca, Almir Sater, o Grupo Acaba e a família Espíndola aproximaram a cultura pantaneira de linguagens urbanas e contemporâneas.

Foi um período de grande efervescência artística. A música regional deixou de ser compreendida apenas como registro folclórico e passou a dialogar com a MPB, o rock, o jazz e outras formas de experimentação.

Nesse ambiente nasceu uma das canções mais emblemáticas da história de Mato Grosso do Sul: “Trem do Pantanal”, de Paulo Simões e Geraldo Roca. Eternizada na interpretação de Almir Sater, a composição ultrapassou as fronteiras do Estado e tornou-se uma espécie de hino afetivo do povo sul-mato-grossense.

A canção reúne viagem, paisagem, saudade e pertencimento. O trem que atravessa o Pantanal não conduz apenas passageiros. Transporta lembranças, sonhos e a própria imagem de um território que aprendeu a reconhecer-se por meio da música.

Almir Sater levou essa identidade para todo o Brasil. Com sua viola de dez cordas e uma sonoridade capaz de unir tradição e sofisticação, tornou-se um dos maiores representantes da cultura pantaneira. Sua obra mostrou que a música nascida no interior poderia alcançar projeção nacional sem abandonar suas raízes.

HELENA MEIRELLES: A VIOLA QUE O TEMPO NÃO CALOU

Poucas trajetórias representam tão bem a força cultural de Mato Grosso do Sul quanto a de Helena Meirelles.
Durante décadas; a sul-mato-grossense nascida na Fazenda Jararaca, hoje município de Nova Andradina; tocou viola em festas, bailes e encontros populares, quase sempre distante dos grandes palcos. Mulher, violeira e interiorana, enfrentou preconceitos e viveu à margem da indústria musical até ser reconhecida nacional e internacionalmente.

Quando sua arte finalmente ganhou projeção, Helena já carregava uma vida inteira de histórias. Sua técnica singular, marcada pela força rítmica e pela profunda ligação com a fronteira, conquistou admiradores no Brasil e no exterior.

Helena Meirelles tornou-se símbolo de resistência. Sua obra provou que o talento pode permanecer escondido durante anos, mas não deixa de existir. Quando encontra espaço, rompe o silêncio com a força de quem sempre soube exatamente de onde vinha.

O RENASCIMENTO DOS BAILES E A FORÇA DOS NOVOS GRUPOS

Entre os anos 1980 e 2000, os bailes voltaram a ocupar posição central na formação de músicos e públicos. Bandas e grupos passaram a combinar elementos da música regional com arranjos mais modernos, instrumentos elétricos e repertórios voltados para grandes eventos.
Nessa renovação, ganharam espaço nomes como Grupo Tradição, Mensageiros D’Oeste, Alma Serrana, Canto da Terra, Zé Corrêa e outros artistas que ajudaram a atualizar a linguagem sertaneja produzida no Estado.

O formato dos bailes funcionava como uma verdadeira escola. Os músicos precisavam dominar diferentes ritmos, interpretar repertórios variados e compreender imediatamente a reação do público. Era preciso tocar polca, chamamé, vaneira, guarânia, rasqueado, sertanejo e música romântica muitas vezes, na mesma noite.

Dessa convivência surgiu uma geração versátil, acostumada a dialogar com públicos distintos e preparada para as transformações que o mercado musical viveria nos anos seguintes.

DOS PALCOS REGIONAIS PARA O BRASIL

A partir dos anos 2000, Mato Grosso do Sul tornou-se um dos principais celeiros da música sertaneja brasileira. Artistas que começaram em pequenos bares, festas universitárias, casas noturnas e eventos do interior passaram a conquistar projeção nacional.
Luan Santana, natural de Campo Grande e criado em Jaraguari, iniciou sua trajetória ainda muito jovem. O sucesso de “Meteoro” transformou-o em fenômeno popular e abriu caminho para uma carreira de grandes proporções.

Na mesma geração, duplas como Maria Cecília & Rodolfo, João Bosco & Vinícius e Munhoz & Mariano também ganharam espaço no mercado nacional. Outros nomes, como Loubet, Gabriel Sater e Marcelo Loureiro, seguiram caminhos próprios, ampliando a diversidade da produção musical do Estado.

O êxito desses artistas não surgiu por acaso. Foi resultado de uma estrutura cultural construída ao longo de décadas: os programas de rádio, os bailes, as festas agropecuárias, os festivais universitários, os bares, as comitivas e a tradição familiar de aprender música dentro de casa.

A geração contemporânea mudou a linguagem, incorporou novas tecnologias e dialogou com as exigências do mercado. Ainda assim, preservou elementos essenciais da formação musical sul-mato-grossense: a narrativa do interior, a proximidade com o público e a capacidade de transformar experiências cotidianas em canção.

O SOM DO MATO GROSSO “DO NORTE”

A divisão territorial que criou Mato Grosso do Sul não ergueu uma parede cultural entre os dois estados. Ao contrário: as influências continuam atravessando a antiga fronteira administrativa.

A região norte do antigo Mato Grosso recebeu forte influência de Goiás, do Triângulo Mineiro e das tradições do cerrado. No sul, a proximidade com Paraguai e Argentina, somada à presença gaúcha, paulista, mineira e indígena, produziu outra combinação de ritmos e costumes.

Essas diferenças, no entanto, não significam ruptura. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul continuam ligados por histórias familiares, rotas econômicas, tradições rurais e repertórios compartilhados.

A música revela essa proximidade com clareza. O rasqueado cuiabano, a guarânia, a polca, a viola e o sertanejo circulam pelos dois estados, assumindo características próprias conforme a região, mas preservando uma origem comum.

UMA MÚSICA IMPOSSÍVEL DE LIMITAR

Definir a música sertaneja de Mato Grosso do Sul é tarefa arriscada. Toda tentativa de enquadrá-la em um único gênero acaba deixando alguma coisa de fora.

Ela está na viola de Almir Sater e Helena Meirelles; nas vozes de Délio e Delinha; no experimentalismo de Geraldo Espíndola; na poesia de Paulo Simões e Geraldo Roca; nos bailes dos grupos regionais; no acordeon fronteiriço; na harpa paraguaia; no chamamé; na polca; no rasqueado; e no sertanejo contemporâneo que conquistou o país.

É uma música construída por povos que chegaram, partiram, permaneceram e se misturaram. Uma música de fronteira — não como limite, mas como lugar de encontro. Por isso, qualquer tentativa de estabelecer uma linha definitiva entre o sertanejo, o regional, o pantaneiro, o caipira e o popular será sempre insuficiente.

Como ensinou Manoel de Barros, no Pantanal ninguém passa régua. E na música de Mato Grosso do Sul, muito menos.

Rogério Alexandre Zanetti

Jornalista, Publicitário e Pesquisador Cultural




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